A História de todos nós

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Por Eurípedes Mendes

A história de cada pessoa, nem sempre é escrita apenas com tinta. Há histórias de vida escritas com lágrimas. Muitas lágrimas. Há também algumas histórias de vida que, de tão difíceis, parece que foram escritas com sangue. Há histórias de vida que, definitivamente, não são histórias comuns.

Me chamo Eurípedes Mendes. Minha história é não é comum. Minha história foi marcada por grandes perdas, ainda quando bem pequeno. Mas, um menino que Deus escolheu, para ser uma benção para outros meninos, meninas e incontáveis famílias da terra.

Minha mãe deixou a família para traz, pois não suportou a vida conturbada ao lado do meu pai. Éramos três irmãos deixados para morar com a avó, eu era o caçula, com um ano e três meses e não entendia nada do que estava acontecendo. Aos seis anos, perdi minha a avó para a morte e, alguns anos depois, a segunda esposa do meu ia embora pelo mesmo motivo: não conseguia viver com meu pai. Aprendi cedo a conviver com as rupturas, o abandono, a vida em casa de parentes, as despedidas, as fortes perdas e as abundantes lágrimas. Contava com pouca presença paterna e uma infinidade de sentimentos de dor, confusão, raiva e uma vontade louca de fugir da pequena cidade de Rio Verde-GO.

Desenhar começou a ser meu grito desde os 10 anos. Encontrei um caminho para liberar a minha dor em poesia visível. Eu precisava falar, mesmo com aquele nó na garganta. Os lápis e as canetas nanquins me ajudavam! Grandes amigos eram aqueles. Não demorou muito, meu trabalho começou se destacar. Porém, eu e meus dois irmãos tínhamos que priorizar as tarefas em um mercadinho que meu pai tinha. Nisso, vi boa parte da minha vida de criança que ir embora.

Outro refúgio para mim foi minha a igreja. Frequentei desde os meus 10 anos. Nunca vou me esquecer do primeiro homem de Deus que conheci, o Pastor Denílson. Acredito que grande parte dos valores existentes em mim hoje foram gerados por ele. Quando fiz meus dezoito anos, a vontade louca de sair de casa ficou mais gritante, fui tentar a vida em Uberlândia, para trabalhar já como desenhista na afiliada do SBT da cidade. Uma oportunidade que não poderia passar por mim sem que eu a aproveitasse. E Deus foi me dando graça na profissão. Nessa fase, conheci a Igreja Cristã Sal da Terra. A partir daí, começaram a aparecer algumas flores e frutos naquela estrada, entremeados de espinhos. Conheci o segundo homem de Deus que se tornou uma referência e uma voz em minha alma, o Pr. Paulo Borges Júnior.

Na minha confusão de jovem, errei e tropecei várias vezes. Mas, como um filho pródigo, sempre voltava para a casa do Pai, quebrantado. Caminhava em passos lentos, até que, procurando me estatuar em Cristo, mais uma vez fui surpreendido pelos golpes da vida. Mais perdas estavam por vir.

 

GOLPES MORTAIS

“Oripinho, nosso pai matou nosso irmão”. Esta foi a frase que ouvi pelo telefone na manhã de 1995. Dia difícil de esquecer. Mas estava ali, diante de mim a irremediável sentença. Meu pai, em desespero e diante de uma briga, mata meu irmão a facadas e é preso. Fui imediatamente para a cidade onde vivi minha infância. Cheguei no presídio e logo me levaram à cela onde ele estava. As grades geladas daquela prisão se intrometiam no meu abraço com ele. Choramos muito. Foram meses de agonia, advogados, família mais destruída do que já era, julgamento e sentença. Mesmo com uma referência paterna distante, escolhi não abandonar meu pai no momento mais difícil da sua vida. Talvez ali, eu comecei a aprender a amar meu pai e abandonar toda a raiva que eu tinha dele. Mas muita coisa ainda tinha que ser resolvida dentro de meu ser.

Após um tempo, retornei para Uberlândia com os restos de mim. Agora, experimentava o sentimento de estar “sem pai e sem mãe”. Tentei me encaixar na antiga Igreja Sal da Terra, mas não consegui, minha alma estava começando a dar os primeiros sinais de sua doença. Decidi fugir e tentar a vida em Goiânia. Em Goiânia, comecei um trabalho na Editora Abril. Vivi dias de deserto para conseguir me encontrar em alguma igreja.

Enfrentei períodos de grande sequidão. Em meio a esse momento que me amargava e os sentimentos de abandono, me via muito perdido. Achei que a melhor escolha a fazer e tentar a vida com alguém. Dura ilusão. Não sabia eu o quando minha alma era doente. Aquilo que chamo de carência, uma enfermidade na alma, tão bem escondida dentro de mim, algo que a qualquer momento poderia eclodir ao lado de alguém. Então, vivi outro golpe forte de desilusão em meu recém construído relacionamento. Mais uma ruptura acontece em minha vida, e com isso perdi a convivência com meu filho que amava tanto. Perdi este relacionamento, perdi convívio com eu filho e quase perdi a própria fé também. Parecia que a vida havia deixado vários débitos comigo.

 

EM BUSCA DE SENTIDO

Ao todo, foram dois anos de depressão. Temos difíceis de administrar. O amargo do cálice da vida tornava tudo sem sabor, sem cor, sem contraste. Chorava alto. Mas, quem poderia me ouvir àquela altura? Eu estava totalmente mergulhado no ódio e seus aliados. Muita revolta. Muito ressentimento. Minha miséria culpava a todos, culpava a vida, culpava a mim mesmo. Não tinha forças para perdoar e nem para ver minha alma tão enferma. Afundei-me na prostituição e na imoralidade. Parei a vida por quase dois anos. O ódio se instalou. Eu ainda não havia aprendido que o perdão não muda em quase nada o passado. Mas, só ele pode abrir um novo caminho para um futuro. Certo dia, um livro então chega às minhas mãos por meio de um amigo da Jocum, o Victor. Pequenos gestos podem causar revoluções profundas. Aquele livro ficou meses em minha estante.

Minha alma enfrentava pecados, ódio, revolta, mágoas e tempestades grandes demais para que eu pudesse me assentar para ler. Mas, após um tempo, finalmente abri e li: “A Face Oculta do Amor”. do pastor Marcos de Souza Borges e comecei a ler. Naqueles dias, chorei por horas. Este pequeno livro me ajudou a reencontrar com a possibilidade de crer contra a esperança. Não havia mais como eu mudar aquela sequencias de abandonos, rupturas, raivas, ódio e dívidas na vida. Mas havia um caminho para superar isso. Havia uma segunda opção! Que trilha eu tomaria? Deus me mostrou algo: Aquele menino do interior de Goiás queria a vida de Judas ou a vida de Pedro?

O primeiro: Judas, se vendeu, se prostituiu e teve como resultado o desprezo e a morte. O seu destino final foi o suicídio! O segundo caminho: Pedro, era diferente. Apesar da traição, de ter cortado a orelha de um soldado, das várias coisas erradas que fez, Pedro ao se deparar com seus fracassos, chorava amargamente e se arrependia.

Comecei a pensar nas erros e perdas de Pedro. Percebi que eu não era o único. A vida de Pedro parecia com a minha, mas aquele homem, porém, teve uma atitude diante de suas perdas e erros. Depois da morte de Jesus, Pedro foi fazer aquilo que acreditava: pescar. Eu acreditava em que? O que na minha vida fez sentido, durante minha caminhada, que eu pudesse olhar e ver esperança?

Assim como Pedro acreditava na pescaria, eu percebi, que eu acreditava em algo. Eu acreditava na minha vocação. Eu acreditava no lugar que me mostrou toda a beleza, a perfeição e a realização da vontade de Deus. Eu acreditava em Jovens Com Uma Missão. Em 1997 eu fiz ETED em Jocum Goiânia. E naquele momento, já em 2006 aquilo tudo estava fazendo sentido para mim novamente! Assim como o texto bíblico diz que o reino de Deus é semelhante a um homem que vendeu tudo o que tinha e comprou um terreno para desenterrar um tesouro, eu fiz da mesma forma, vendi tudo e fui para a Jocum. Deixei tudo para traz, minha vida, meus erros, minhas perdas, minhas rupturas, meu ódio.

Então eu vim para Almirante Tamandaré, há seis anos, para desenterrar um tesouro.

Tudo estava morto em mim quando cheguei na Base de Jocum. A sensação que eu tinha era que o meu próprio corpo estava sendo velado. Parecia uma grande loucura, difícil de acreditar que um morto-vivo poderia ter vontade de viver, mas Deus estava me mostrando um caminho excelente! Deus estava me restaurando, a partir da minha vocação. Passei por uma nova ETED – Escola de Treinamento e Discipulado. Passei pela EIFOL – Escola Integral para Formação de Libertadores. Vivi um período de restauração. Quantas vezes desci no laguinho nos fundos da base para chorar e me render aos pés do Senhor. Ali, queimei inúmeras “promissórias de débitos” que a vida tinha comigo. “Meu pai não me deve nada, minha mãe não me deve nada, a mãe do meu filho não me deve nada, a vida não me deve nada€, disse. Foi um processo de cura que durou pelo menos um ano.”

Então, como se estivesse sendo lapidado, comecei a viver um intenso processo de aprendizado. Eu tive de encarar meus erros, não mais como vítima, mas como quem escolhia a maneira certa de agir. Comecei a ver em minha própria carne, como são dolorosas as feridas dos meus piores defeitos. Como um homem adulto, aprendi a assumir as consequências dos meus atos e das minhas escolhas. Tive que aprender a deixar as coisas de menino.

Era necessário isso. Em uma ministração na Eifol, Deus falou profundamente comigo, e de uma forma definitiva arrancou todas as raízes relacionadas ao abandono. €œEu me vi como uma criança dentro quarto, abandonado como fui muitas vezes na vida. Dentro do quarto, trancado e eu dizia, não saio daqui nunca mais, minha mãe me abandonou, minha vó morreu, minha madrasta me abandou e um relacionamento frustrado. Me vi como uma criança fugindo de Deus. E eu vi Jesus entrando no quarto me tirando do quarto e dizia que eu não estava sozinho. E a partir daquele dia minha vida mudou. Eu não me sinto mais abandonado, sou filho de Deus. Sou pão, sou resposta.”

Assumi minha identidade. Assumi minha vocação, Assumi meu chamado, Assumi os dons que Deus havia confiado a mim. Assumi a responsabilidade de ser homem, pai, pastor, líder, amigo, esposo e assumi a responsabilidade de um ministério em Jocum Almirante Tamandaré.

 

O SEPULTAMENTO DO PASSADO

Agora meu desafio era, me adaptar a uma vida nova. Sem Cristo, nós nos viciamos em nós mesmos. Meu desafio era viver plenamente a liberdade da cruz. E eu orava a Deus para ter essa nova vida integral e abundantemente: comecei a sonhar com uma esposa e uma nova família.

Certa vez eu perguntei ao Pr. Coty: “O que faz o relacionamento ser de Deus?” E a resposta foi simples: “A sua capacidade de abrir mão do relacionamento”. Deus queria trabalhar esse princípio na sua vida. Isso era a prova de fogo para alguém que estava aprendendo a lidar com perdas.

Então, o Deus soberano, que dirige a história, conduziu uma filha dele para a Eifol em Almirante Tamandaré. Carioca, líder na Igreja, intercessora, pregadora é claro. Muito especial e maravilhosamente linda. Uma mulher que se deixava usar. Uma mulher que também aprendeu a lidar com os débitos da vida e suas próprias frustrações e perdas. Uma mulher segundo seu coração de Deus.

Conhece a mente de Deus? Quem foi seu conselheiro? Aquela mulher tocou minha alma. De uma maneira que eu não entendo e jamais entenderei, algo em mim alcançou seu coração também. E de repente, ela abriu mão de ser ímpar, para ser par. Abriu mão do seu sonho, para abraçar sonhos meus e sonhos nossos. Agora, ela estava diante de um novo percurso. De solteira, para casada. Do Rio de Janeiro para Curitiba. Não era somente um casamento, mas ela foi desafiada a assumir um ministério inteiro de uma só vez.

Durante um ano, vi Hosana por apenas quatro vezes e nos casamos com uma convicção inabalável. Um dia eu perguntei a Deus porque tinha uma esposa tão maravilhosa. E a resposta foi “porque essa esposa eu tirei de dentro de você, você agora é um homem curado e restaurado. Agora era aprender a lidar com o agir de Deus. Éramos um jovem casal, vendo Deus usar nossas vidas para restaurar pessoas, ministérios, lideranças e sonhos de várias. Tudo muito rápido e intenso, apesar da nossa fragilidade, inexperiência e desafios como casal.

Nosso crescimento ministerial em Almirante Tamandaré foi extraordinário. O que Deus em nós opera, suplantando as nossas debilidades e fortalecendo em Sua Graça. Deus nos surpreendia. Deus operava. Deus inspirava. Deus multiplicava. A Ele seja a toda a glória. Hoje vejo com gratidão ao menos seis projetos na Jocum em Almirante Tamandaré debaixo do ministério que Deus nos deu. Todos surgiram a partir da Eted Comunicadores ou de relacionamento com seus alunos. Essa escola, além de tratar a alma do aluno, quem participou teve a oportunidade de aprender os principais conceitos da área de comunicação. Meu sonho sempre foi que a partir dela surgissem novos ministérios, o que de fato aconteceu. A filosofia de seu ministério é baseada na amizade. E isso sempre foi algo claro para seus alunos e amigos. A porta da minha casa sempre está aberta para todos. Ela sempre será um solo fértil para as sementes, sejam em risos, sejam em lágrimas.

Certa vez, alguém me disse que eu o ajudei a se posicionar na vida e ter Cristo como alvo e ter seu caráter alicerçado nos valores e princípios do Reino de Deus. Que gratidão vê-lo como estudante de teologia e casado. De aluno, Igor logo já passou a ajudar Hosana na coordenação da Eted Comunicadores e hoje é coordenador de uma Escola de Sexualidade, um dos assuntos mais ministrados por mim na atualidade. Descobrir talentos é desafio que Deus me deu. Um presente-desafio. Ao olhar para este auditório, em meu culto de envio, vejo a resposta de várias orações expressa na vida de algumas pessoas.

Ao olhar para a minha vida, vejo a Palavra de Deus viva, palpável nos versos de Paulo: “E nós, cooperando também com ele, vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão. Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Não dando nós escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado; Antes, como ministros de Deus, tornando-nos recomendáveis em tudo; na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, na ciência, na longanimidade, na benignidade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, à direita e à esquerda, por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama; como enganadores, e sendo verdadeiros; como desconhecidos, mas sendo bem conhecidos; como morrendo, e eis que vivemos; como castigados, e não mortos; como contristados, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, e possuindo tudo”. 2 Coríntios 6:-10.

Viver o que eu vivi é como o principio do pão, fui moído, triturado, amassado para poder chegar para uma pessoa e dizer, eu sei o que você está vivendo já passei por isso. Jesus era homem de dores, pra mim liderança é saber o que é padecer. Eu sei o que é ser abandonado, viver no pecado. Mas, onde abundou o pecado superabundou a graça.

 

Euripedes Mendes

Filho de Deus e servo do nosso Senhor Jesus Cristo